EUA e Israel compartilhando dados sobre instalação Nuclear?

A decisão de Israel de atacar a Síria em 6 de Setembro, bombardeando uma instalação nuclear suspeita construída em aparente colaboração com a Coréia do Norte, veio após Israel compartilhar neste verão informações com o Presidente Bush indicando que técnicos nucleares da Coréia do Norte estariam na Síria, segundo fontes do governo americano.

A administração Bush não comentou o ataque israelense nem as informações citadas. Apesar de a administração estar profundamente preocupada com a declaração de Israel de que a Coréia do Norte estaria auxiliando nas ambições nucleares de um país proximamente ligado ao Irã, dizem as fontes, a Casa Branca posicionou-se contra uma resposta imediata porque teme que isso possa minar as longas negociações em andamento no sentido de persuadir a Coréia do Norte a abandonar seu programa nuclear.

Em última instância, entretanto, crê-se que os Estados Unidos tenham fornecido a Israel corroboração das informações originais antes de Israel prosseguir com o ataque, que atingiu a instalação síria ao cair da noite para minimizar possíveis vítimas, dizem as fontes.

O alvo do ataque de Israel foi dito encontrar-se no norte da Síria, próximo à fronteira com a Turquia. Um especialista em Oriente Médio que entrevistou um dos pilotos envolvidos disse que eles operaram sob uma segurança operacional tão estrita que a cobertura aérea para os aviões de ataque não conhecia os detalhes da missão. Os pilotos que conduziram o ataque foram informados após estarem no ar, ele disse. As autoridades sírias disseram não ter havido vítimas.

Inteligência Israelense

Fontes Americanas discutirão as informações israelenses, que incluíam imagens de satélite, somente em condição de anonimato, e muitos detalhes sobre a conexão entre Coréia do Norte e Síria permanecem desconhecidos. A qualidade das informações israelenses, a extensão da ajuda norte coreana e a seriedade do esforço sírio são incertas, abrindo a possibilidade de que a Coréia do Norte estivesse meramente descarregando itens de que não mais necessita. A Síria buscou ativamente armas químicas no passado, mas não armas nucleares – deixando alguns especialistas na proliferação céticos quanto às informações que motivaram o ataque de Israel.

Síria e Coréia do Norte negaram esta semana que estivessem cooperando em um programa nuclear. Bush recusou comentar ontem sobre o ataque, mas mandou um aviso franco à Coréia do Norte de que “a exportação de informações e/ou materiais” afetaria as negociações sob as quais a Coréia do Norte desistiria de seu programa nuclear em troca de ajuda energética e reconhecimento diplomático.

“Quanto ao fato de estarem proliferando, esperamos que parem essa proliferação, se querem que as negociações entre as seis partes sejam bem sucedidas,” ele disse em uma coletiva de imprensa, referindo-se às negociações que também incluem China, Japão, Coréia do Sul e Rússia.

Diferentemente da destruição de um reator nuclear iraquiano em 1981, Israel não fez qualquer anúncio do recente ataque e impôs uma estrita censura sobre os relatórios por parte da mídia israelense. A Síria fez apenas protestos brandos, e líderes árabes se mantiveram em silêncio. Como resultado, um ousado e aparentemente bem sucedido ataque para eliminar uma potencial ameaça nuclear ficou envolvido em mistério.

“Não há dúvida de que foi um ataque importante. Era um alvo extremamente importante”, disse Bruce Riedel, ex-oficial da inteligência do Centro Saban para Políticas do Oriente Médio da Brookings Institution. “Ele veio em um momento em que os israelenses estavam muito preocupados com uma guerra com a Síria e queriam por arrefecer as perspectivas de guerra. Essa decisão reflete a importância desse alvo para os planejadores militares de Israel”.

'Uma linha vermelha de verdade'

Israel tem sabido há muito tempo sobre o interesse da Síria em armas químicas e até mesmo biológicas, mas “se a Síria decidisse ir além disso, Israel pensaria que isso era uma verdadeira linha vermelha”, disse Riedel.

Edward Djerejian, ex-embaixador Americano na Síria e diretor fundador do Instituto Baker para Políticas Públicas da Universidade Rice, disse que quando esteve em Israel  neste verão notou “uma grande preocupação nos círculos oficiais israelenses sobre a situação no norte”, em particular quanto ao jovem governante sírio, Bashar al-Assad “ter a mesma sensibilidade a linhas vermelhas que seu pai tinha”. Bashar sucedeu Hafez al-Assad como presidente da Síria em 2000.

O ataque israelense ocorreu apenas três dias após uma embarcação norte-coreana ter atracado no porto sírio de Tartus, trazendo uma carga que foi oficialmente listada como cimento.

A missão da embarcação permanece obscura. Fontes israelenses sugeriram que transportava equipamento nuclear. Outros sustentaram que continha apenas peças de mísseis, e alguns disseram que a chegada da embarcação e o ataque são uma mera coincidência. Uma fonte sugeriu que o ataque de Israel foi motivado por temor de um vazamento das informações para a mídia.

A cautela da administração Bush com a apresentação das informações israelenses contrasta com sua reação em 2002, quando oficiais americanos acreditavam ter pego a Coréia do Norte construindo um programa nuclear clandestino em violação de um tratado de congelamento nuclear pela administração Clinton.

Após a acusação da administração Bush, o tratado de Clinton desmoronou e a Coréia do Norte religou um reator nuclear, estocou plutônio e eventualmente conduziu um teste nuclear. A Secretária de Estado Condoleezza Rice convenceu Bush este ano a aceitar um tratado com a Coréia do Norte para desligar o reator, enfurecendo os conservadores dentro e fora da administração.

Proliferação nuclear

Mas por anos Bush também advertiu a Coréia do Norte contra se engajar em proliferação nuclear, especificamente fazendo disso uma linha vermelha que não poderia ser cruzada após a Coréia do Norte ter testado um dispositivo nuclear no ano passado. A inteligência israelense, portanto, sugere que a Coréia do Norte estaria tanto minando o acordo quanto ultrapassando essa linha.

Críticos conservadores da recente diplomacia da administração com a Coréia do Norte tomaram relatórios da inteligência israelense como evidência de que a Casa Branca está equivocada se pensa que poderá conseguir um acordo duradouro com Pyongyang. “Por pior que possa ser para as negociações das seis partes, a segurança americana requer que essas coisas sejam tratadas seriamente”, disse John R. Bolton, ex-embaixador americano para as Nações Unidas, que foi o principal oficial de controle de armamentos da primeiro mandato de Bush.

Mas defensores do engajamento acusaram os críticos de tentar sabotar as conferências. Na segunda-feira a China adiou abruptamente uma rodada das negociações agendada para começar esta semana, mas oficiais americanos dizem que as negociações devem começar novamente na quinta-feira.

Alguns especialistas norte-coreanos dizem que estão intrigados porque, se os relatórios são verdadeiros, Pyongyang iria arriscar um acordo conseguido a duras penas com os Estados Unidos e as outras quatro nações. “Não faz nenhum sentido no contexto dos últimos nove meses”, disse Charles “Jack” Pritchard, ex-negociador americano com a Coréia do Norte e atual presidente do Instituto Econômico da Coréia.